THE TRUE COST

domingo, outubro 07, 2018


Esta semana ficou marcada pelos stories da Mariana Soares Branco e da Catarina Barreiros sobre CLOSET SALE e o valor que damos às peças que compramos, que consumimos.
E para me inteirar ainda mais sobre o assunto (não que já não soubesse de muita coisa que vi) decidi ver este Domingo o documentário THE TRUE COST.

Este documentário foi lançado em 2015 e eu sempre o quis ver, mas nunca o fiz não sei bem porquê.
Aborda precisamente o custo que uma peça tem, não só em termos ambientais, económicos e sociais, mas principalmente em termos pessoais.




A indústria têxtil é a 2ª mais poluente do mundo, tendo um impacto ambiental brutal, não só pelos recursos naturais que usa, assim como pela poluição provocada pelos resíduos das grandes fábricas. 



Além de todos estes problemas, há outros maiores que se levantam, e que, para mim especialmente, me afectaram de forma mais profunda, porque é precisamente contra tudo isso que tento lutar através da minha marca.
Uma das frases que mais me marcou no documentário foi:

"I don't want anyone wearing anything, which is produced by our blood."

Para quem não sabe em 2013 um prédio de oito andares - o Rana Plaza - que abrigava fábricas desabou no Bangladesh, matando perto de 1200 trabalhadores.
Trabalhadores esses, que já estavam fartos de avisar o proprietário (é assim que eles denominam os donos das fábricas) para as rachadelas do edifício.
Trabalhadores esses que não deviam ganhar mais que 0,13€ por dia, por mais de 1 horas, escravos totais do consumismo e capitalismo ocidental.




Foi aqui. Neste ponto que mais me doeu este documentário.
Estou dos dois lados da barricada.
Sou consumidora (cada vez menos confesso e não sei se passarei a zero depois disto) e tenho a minha marca, onde luto contra tudo isto.
Sei de cor a cara de todas as pessoas que estão por trás das peças que produzo.
Sei-lhes os nomes, perco, ou ganho, quase sempre tempo a conhece-las um pouco mais, a sua história, o porquê de agora estarem ali.
São todas mulheres. E todas recebem exactamente aquilo que me pedem.
Nunca lhes regateei um preço. Nunca pedi para pagar menos.
E quando, por vezes, aumentam o preço de algo ouvem-me sempre dizer "eu quero pagar o que for justo para si.".

Muitas de vocês não sabem, mas sou só eu por detrás da MAHRLA.
Sou eu que corro para comprar tecidos, para coloca-los no corte, para levar do corte à confecção e da confecção para o acabamento.
Sou eu que faço todos esses transbordos, sou eu que vos respondo, que registo as vossas encomendas, que giro as redes sociais, que tiro as vossas facturas, que faço os vossos despachos.
Sou só eu que sei por todos os processos que passam uma peça minha para sair da minha cabeça e chegar às vossas mãos.
Por isso me magoa quando questionam o preço de algo, porque acreditem, eu sei quanto elas valem e muitas vezes não é só o que eu cobro.

Se eu podia entregar tudo a uma fábrica das grandes?
Deixar só lá o meu desenho, a minha ideia e recolher as peças embaladas prontas a serem despachadas?
Se calhar podia... mas nunca saberia se tinham sido mesmo eles a faze-las, ou teriam sub-contratado alguém, pagando muito menos do que me cobrariam a mim.
Que história teria? Não iria aproximar-me ainda mais disto tudo que quero fugir?
Deixo-vos aqui um exemplo de quanto custa fazer algo dentro em pequena escala, ou fora, em massa.


É por isso que me orgulho do que estou a construir. 
Me orgulho de cada vez mais só usar o que faço e o que outras marcas portuguesas também fazem.
Por cada vez mais fugir da FAST FASHION e procurar comprar num comércio justo.
Por cada vez mais aceitar que quando temos um estilo não precisamos de comprar peças descartáveis todos os dias, mas antes ter boas peças que nos permitam inúmeras combinações.
É isso que pretendo cada vez mais com a MAHRLA.
Mais qualidade, mais versatilidade, ainda mais durabilidade.
"A moda nunca pode ser pensada como algo descartável".

Não levem este post como algo publicitário. 
Acontece que levei um murro no estômago ao vê-lo, ao ponto de chorar com alguns testemunhos, e tendo uma marca é impossível não me comparar e fazer mostrar alguns pontos de vista que implemento todos os dias na sua evolução.

Acima de tudo tenham em mente esta imagem na próxima vez que tiverem uma peça na mão.


Como dizia, Livia Firth da Eco-Age no documentário:

"A moda rápida quer produzir rapidamente, então o trabalhador têxtil tem de produzir mais rápido e mais barato. Então o trabalhador têxtil é o único ponto da cadeia de fornecimento onde a margem diminuiu. 
E existem empresas enormes que vão a fábricas no Bangladesh, encomendam 1.5 milhões de calças de ganga por 30 cêntimos cada, 50 cêntimos cada... Como é que isso pode ser ético? Eu não sei. Mas também , do ponto de vista do consumidor, é realmente democrático comprar uma t-shirt por 5 euros ou pagar 20 euros pelas suas calças de ganga? Ou estão a enganar-nos? Porque estão a fazer-nos acreditar que somos ricos e abastados porque podemos comprar muito.
Mas, na verdade estão a tornar-nos mais pobres. 
E a única pessoa que está a ficar mais rica é o dono dessa marca rápida."


Comprem com sentido. Comprem com valor. Comprem com história.


with love,
Sílvia Pereira

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2 comentários

  1. Já enviei o meu comentário sobre este documentário e comentei esta noite com a avó do meu marido, ela comentou comigo como antigamente os casacos se usavam de um lado um ano e no ano seguinte se usavam do lado inverso para usar mais um ano. A minha filha tem 1 ano e meio e deu-me conta que tem 5 casacos que so vai mesmo usar num unico inverno (para o ano não vão servir). Não foram caros, comprei nos saldos do ano anterior...mas a mais pura das verdades, ela não precisa, ninguém precisa de tantos casacos (de sair),mas é barato, "não custam muito" e são tão giros...mas para que comprar, consumirmos desta forma tao descartável? Nunca no meu tempo eu tive mais de um casaco de sair, era só um e provavelmente já tinha passado por nao sei quantos primos. Da que pensar...

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  2. Parabéns Sílvia! Gostei muito de ler. Quando vi o documentário também foi como um murro no estômago. Já tinha ouvido algumas histórias, mas ver com os meus olhos esta realidade foi um ponto de viragem. Deixei de comprar fast fashion e acabei por também criar uma marca para criança. Posts como este são muito importantes para ajudar a mudar mentalidades. Obrigada.

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